 |
|



|
Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, MAUA, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Música, Arte e cultura, Poesia MSN - leogreenleaf@hotmail.com
|
Histórico
01/08/2005 a 31/08/2005
01/07/2005 a 31/07/2005
01/03/2005 a 31/03/2005
01/02/2005 a 28/02/2005
Outros sites
My own little world
Ruídos silenciosos
Crazy Fairies
Poptopia
blog.lap
O lírio do Vale
Fragmentos croniquizados
Running
Cotidiano Pungente
Comédia Humana II
Sândalo Branco
In the sky with diamonds
|
 |
 |
|
|
| |
EMAILS AQUÉM DE MIM Hoje eu estava sentado esperando um trem – eu podia estar ali esperando qualquer outra coisa que também me falte e nada mudaria, enfim. O trem chegou primeiro. Na estação que ficava distante deixei uma lembrança; no destino que perseguia – tropeçando de paragem em paragem –, uma esperança. Assim me pareceu o amor – visto da janela mínima de meu assento.
Ponha no lápis, querida: nós viajamos por amar. Eis o movimento, o fim desta solidez inerte. E o trenzinho já vai rodando a ciranda e o destino. Um amor chegou na segunda estação. Logo ele não será o bastante e partiremos. Na terceira, procuraremos a quarta numa ânsia sem razão. Partiremos pra seguinte e a seguinte e a seguinte e a seguinte. Até que já não quereremos viajar! É quando nos damos conta que qualquer paragem é um bom lugar para descansar desse sol na cara que é viajar e viajar; um bom lugar para simplesmente não ter de disputar um banco para agüentar o cansaço. A segunda faria a vez da terceira, esta da quarta ou da quinta estação ou de qualquer futura. Cada paragem é um descanso. Descanso! Não uma nova frustração de procurar mais.
Hoje não quero avançar mais não. Quando eu chegar na próxima estação, me deixem quietinho em algum banco, me deixem aproveitar a interrupção da viagem – o que já é um grande mérito.
De fato, o trem não pára, não há quem o faça parar. Mas amar talvez não seja congelar a vida – que ela siga! Amar tampouco parece ser a eterna viagem pela próxima, a próxima e a próxima estação – o desconhecido sempre parecendo mais profundo, porque distante. Pra mim, moça, Amar (neste instante e talvez nele apenas) é olhar pro lado e ver que a viagem não parou, que existem outras tantas paradas pelos trilhos. Mas agora... agora você saltou e ao menos até o próximo trem tudo vai poder respirar sem vento na contra-mão, estável.
E como é bom respirar amor sem cortar o vento!
Aquele beijo, Leo
Escrito por Leo Parvus às 23h16
[]
[envie esta mensagem]
To escrevendo com uma vontade imensa de botar muita coisa pra fora, mas não sei se vou conseguir dar conta de tudo isso. Quero falar através do meu, aliás, do nosso romantismo caduco. Quero a depuração, quero ser plenamente em cada palavra para que assim eu expurgue essa culpa, essa dúvida, esse qualquer-coisa que aperta, torce e arde... É aquela velha pergunta, eu sei amar?, eu lá conheço o amor? E não to aqui querendo bancar o Sócrates, sabe, não to falando desse amor que explode para além de tudo. To na condição de humano, humano imperfeito, que precisa ter um objeto, uma pessoa exata a quem direcionar o amor. E se aqui falo em “amor” é só para dar nome a este sentimento de ter, não exatamente ter, mas sentir que alguém é parte de mim – que alguém participa de mim (participar, acho que este é o verbo que quero). Não é dizer ‘tenho alguém na minha vida’, mas ‘tem alguém na minha vida’. Este alguém com quem costuro conjuntamente minha rotina, meu acordar e dormir e que está ali não como um ser de diferença, como alguém que se constrói em mim por diferença – eu sou eu, você é você – mas por um breguíssimo nós somos nós. Entende? Um contrato, mas que não é obrigação, que não envolve papéis e canetas. Talvez não um contrato, mas uma disposição – acho que pesa menos. Uma disposição para cair na real e ver como a negra samba, sabe? Acho que meu romantismo caduco, Ma, ganhou uma boa dose de realismo. Hoje o que existe é esse Leo do Antigo Regime que acredita em Romeu e Julieta, em casais de novela das 8 e um outro Leo despojado de tudo isso e triste por perder tantos contos de fada. Triste e feliz. Meu romantismo agora é agri-doce. Triste pq ele não existe de fato e não há em mim nenhuma tendência permanente ao escapismo – muito pelo contrário, quero me encher de vida... quero estar dentro do ônibus, do trem e saber que eu to participando daquela coisa viva e não sobrevivendo de um ou dois personagens que criei de mim para mim. Por isto sou triste, por não achar na realidade nada daquilo que idealizo. Por isto – também – sou feliz. Por saber que a cada passo que dou é um sonho morto na terra e um poema suspenso no ar, e a cada sonho morto é um pedaço de mim que está preso ao chão e tudo vai tomando uma consciência bonita e dolorida – merda! sou lúcido (lembra daquele poema do Álvaro, que me mandou?). Consciência é bênção e fardo! Mas ela não é a anulação do sonho, antes, é o que permite existir. É um exercício... o que sonho e o que tenho: é preciso que se casem de algum jeito – e se casam! Os filhos que tenho são fruto disso, desta guerrinha diária e por isso são fortes. São filhos fortes de parto difícil, talvez por isso resistam tanto e sejam tão persistentes. Quero meus sonhos e não quero viver deles. E o que me movimenta, o que me faz querer brigar. É o amor tal qual eu o enxergo, é a disposição, é a fé na vida! É aquele “ter” alguém. E se este e-mail é um “talvez isso, talvez aquilo” é pq estou vivendo este momento: um ser relativo. Estou buscando me encontrar. Vc sabe o quanto quero que as coisas se encaixem. Vc sabe o quanto é, foi e parece que sempre vai ser difícil achar alguém – pq esse mundo anda tão desencontrado (ai, quase escapou um desconcertad... Oxalá, Camões). Enfim... estou de guarda baixa, minha amiga. Querendo proteção mais que nunca para poder admitir que não sei de nada, que não tenho certeza de nada... e tudo que realmente existe em mim é um “talvez isso, talvez aquilo” e uma bruta disposição a finais felizes e - se possíveis - reais. Um bjo, Leo PS: Impressão final: não consegui dizer tudo, muito pelo contrário, tenho a impressão que me perdi... tsc tsc tsc, e quando não perco?
Escrito por Leo Parvus às 11h11
[]
[envie esta mensagem]
INTERTEXTO 7: DO MEU TEMPO

Não brandia. Não revolucionava. Era o ser, o ficar, o vivo. Nascera já com a pele vincada e uma ou duas cicatrizes. Não era Lao Tzé. Não era sábio. Mas nascera já – velho. Era um velho sem conselhos, pois que na estrada dera uns vinte e poucos passos. Era de uma estrada branca com poucos escritos, mas noturno, mas triste poeta. Não era à frente do seu tempo, pois que dele – e a ele – esperava. Que ensinasse as coisas que ainda não sabia: Mãe Senhora do Pépertuo, socorrei!, Nosso Bom Senhor dos Passos, passai! Era um pobre diabo a viver da misericórdia alheia. Não era crido, como não é o diabo. Era velho, como é o diabo. Esperava seu tempo, como espera o diabo. Um contrário. - Eu sou meu tempo, eu vou a ferro e a fogo. E grito: Amor! Era fruta, fruta verde que caiu de madura. Caída a maturar no chão, não no pé. Era o sosseguinho. Era o outono de teu tempo para Cartola. E o privilégio deste amor maduro para Drummond. Não revolucionava: deixava-se revolver sem alarde. Não brandia: com os brasões e armas fez o belo registro histórico do que era futuro vindouro. Esperava chover-se no verão – já que se fizera, sempre, nuvem carregada. Mas sem relampejos, sem trovejadas. Só cumprir-se chuva no seu tempo, afinal.
***
No texto: - Meu tempo (Vinícius de Moraes / Marília Medalha) por Marília Medalha - Tempo Rei (Gilberto Gil) por Giberto Gil - Estrada Branca (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) por Ney Matogrosso - O Velho (Chico Buarque) por Teca Calanzans - O inverno de meu tempo (Cartola) por Elizeth Cardoso - Amor e seu tempo (Carlos Drummond de Andrade)
Escrito por Leo Parvus às 15h49
[]
[envie esta mensagem]
INTERTEXTO 5: DO JOSÉ CANTIGA Para Eliézer – que brinca com MPB
Tudo tudo aconteceu num canto desse Brasil sem-fim. Com gente com jota. História de minha jente, minha jente querida.
João morava na beira da praia. No fim do dia, depois de muita jangada e pescaria, sentava na areia para ver as ondas a quebrar. A vida era calejada, mas era do gosto deste homem: o braço bom de rede pro sustento, cabeça pras cantigas (que escrevia comigo), coração pra sua morena, Juliana. Era a maré vazar pra ele atravessar a água: ia ver sua amada. João não era fácil não, era homem; homem do sol-nos-miolos – mas tinha lá seu momentinho de sonho, de conversa fiada, de moleza. Ele era pedra, mas pedra que gasta e também é areia; era onda, mas onda que quebra e também é espuma. A delicadeza de João era Juliana. Ô se era.
José era contador de causos e gracejos. Tinha riso fácil. Sabia dançar o baião. Era festeiro que só vendo. Curtia uma rede, mas tinha de trabalhar – e assim o fazia na feira da cidade. Conhecia toda esse povo e gostava de vê-lo passar: Joana, a francesa fajuta, que rebolava pro povo achar graça; Jurema, a cabocla, que gostava de dar bom-dia; Januário, o tinhoso, que acenava respeitoso; João, que carregava a peixada para abastecer a feira livre. E sorria pra todos. Eita moço brincalhão. Não era desses de levar a vida muito a sério. Minto: levava Juliana. Juliana era séria. Era a piada-séria. Era mentira-séria. Essa moça era a reteza que faltava a José. Ô se era.
(Agora é que a coisa entristece. Minha jente mal tinha esquecido a tal história do pobre Mané Fogueteiro e do sangue que Zé Boticário lhe arrancou pela Rosa. A jente mal tinha esquecido.)
 Tela de Yole Travassos "Festa Junina"
Semana passada. Era domingo. Festa de São João Xangô. João não quis saber de carregar peixe. José desmanchou a barraca. João foi buscar Juliana, pagou saveirista e foram pro festejo. José não achou Juliana em casa, pagou uma rosa e foi pro festejo. A fogueira e o céu de estrela sem destino. Não é que armaram um carrossel? João não gostou do brinquedo, era coisa de homem frouxo, mas foi acompanhar Juliana. José, de florzinha na mão, foi ver a novidade que montaram pra festa. José, João, Juliana.
Juntos.
Juliana correu pro mar. Pescador ainda a vê dançando com vestido encarnado. Juliana era mesmo dona Janaína, a sereia caprichosa de muitos amores. João, desgostoso, dançando com uma garrafa de cachaça na mão, se jogou da encosta. Foi pro doce mar e suas verdes ondas. José, qual bicho-do-mato sem teogonia, queria morrer no mar, mas o mar secou. A festa acabou para todos.
Desta quadrilha junina sobrou este José que te fala, o Cantiga. E eu que já fiz verso com João – hoje conto história dessa gente com jota: jente humilde, minha jente querida
***
O conto aí em cima é uma adaptação livre de um monte de coisa (rs):
MÚSICAS: * João Valentão de Dorival Caymmi – por Nana Caymmi em Songbook de Dorival Caymmi * Vou ver Juliana de Dorival Caymmi – por Juliana Amaral em Águas daqui * Domingo no Parque de Gilberto Gil – por Margareth Menezes em Songbook de Gilberto Gil * Joana Francesa de Chico Buarque – por Zélia Duncan em Sortimento Vivo * Respeita Januário de Luiz Gonzaga – por Luciana Souza em Brazilian Duos * Cabocla Jurema de Rosinha de Valença – por Maria Bethânia em Brasileirinho * Mané Fogueteiro de João de Barro – por Zé Renato em Songbook de Braguinha. * São João, Xangô Menino de Caetano e Gil – por Maria Bethânia em Brasileirinho (ao vivo)
POEMAS: * Poema tirado de uma notícia de jornal de Manuel Bandeira * D. Janaína de Manuel Bandeira * José de Carlos Drummond de Andrade
Escrito por Leo Parvus às 11h39
[]
[envie esta mensagem]
INTERTEXTO 4: DA CAIPIRICE URBANA Para Julio
Não sou nada bucólico – isto me é bem claro. Eu gosto da cidade, das possibilidades, da gente: gosto de andar de metrô, de trem, de ônibus. Gosto da dura poesia concreta das esquinas de Sampa. Mas guardo em mim-mim um jeitinho que é bem do caipira.
Cresci em uma família estabelecida num grande centro, mas com todas as raízes lá nas casinhas térreas de quintal largo, jabuticabeiras, gansos, jardins com dálias. Num lugar desses, lá pros lados de Jundiaí, na Ermida, morava meu bisavô, o João Arruda, certamente o fundador desse budismo cigarro-de-palha. Herdamos. Assim é meu avô, assim é minha mãe, assim sou eu.
Sou do Rancho Fundo; aquele que não sabe lidar direito com o veneno das pessoas da cidade. Minha tristeza é a tristeza do Jeca, com verso singelo, com amor brega, com choro fácil. Sou da gente de pé grosseiro, de mão grosseira e de sonhos fartos, fartos..
Você pode achar que isto aqui já descambou pro teatrinho pastoril da Marília e do Dirceu (ó ovelinhas!). Não é isso. Querem ver? Sei o que não sou: nunca fui pra roça; não agüento a enxada; não suporto insetos. Mas é na ousadia de bicho-do-mato, na malicia faltante, na vida gastada na varanda que vive minha caipirice.
A casa. É onde gosto de ficar, de me entocar. Quero na vida a casinha branca com quintal e uma janela pra ver o Sol nascer; a casa-no-campo na cidade – onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais. Opa! Tá faltando algo. Claro: tá faltando um amor manso. Dizer: Ah, já mandei encomendar nosso cantinho, um lugar só pra nós dois bem no jeitinho, bem bonito com janelas para o mar, já fiz meu rancho lá na beira do caminho. Achei a tradução melhor pro que sinto. E vamos lá! Salve João Donato.
Quero a Arcádia moderna para extemporâneos! Quero rede a balançar no 15º andar!
Minha esperança de óculos vê o sucesso no reconhecimento, não no dinheiro; no cantinho, não no quarteirão; na sossegueira, não no vibe-da-night; na familia; não na capital solidão. Sou este urbaninho acaipirado que dorme cedo, que funciona de dia, que tem alma em romaria: sem saber rezar, mas a mostrar o olhar. Meu olhar.

* * *
Costurado aí está meu repertório caipiro-musical!! hahaha Dá pra montar um CD:
Rancho Fundo por Zé Renato no álbum Silvio Caldas 90 anos. Disco-tributo belíssimo. Atmosfera de serenata, de melancolia, de campo. Escute também: Serra da Boa Esperança. Tristeza do Jeca por Zé Renato e Milton Nascimento no álbum Memorial. Disco em parceria com o Wagner Tiso (disse tudo já!). Repertório bem escolhidinho. Escute também: Morena Rosa. Casinha branca por Maria Bethânia no álbum Maricotinha Vivo. Ah, escolher Betha é clichê demais, mas não tem jeito. Esta música estava no single de divulgação e, realmente, foi uma das ótimas surpresas do CD. Casa no campo por Markinhos Moura no álbum Auto-Retrato. Markinhos era tido como brega – e talvez fosse mesmo. Ano passado ele voltou com este CD ao vivo, independente e com problemas de divulgação. Fiquei com uma boa impressão. E vamos lá? por Joyce no álbum Bossa Duets. Não canso de admirar a genialidade da Joyce. Este álbum é delicioso. João Donato ao piano e a voz linda dela. Eu coloco no Repeat 1 e passo a tarde só no batidinho da música. Romaria por Elis Regina no álbum Elis. Sem comentários também. A voz da Elis cantando “Sou caipira pirapora....” já faz parte do inconsciente coletivo. Chuá Chuá por Teca Calazans no álbum Intuição. A Teca é famosinha abroad, mora em Paris, e por aqui quase nem se fala dela. Voz delicada Um CD super agradável, ajeitado - parente do álbum 'Um canção pelo ar' da Cida Moreira. Escute também: Estrada Branca, do Vinicius.
Escrito por Leo Parvus às 23h59
[]
[envie esta mensagem]
Intertexto 3: Do amor de pescador Para Denis, também pescador
Pelo que andei escutando sou de Câncer, ascendente em Escorpião e Lua em Peixes. Três signos de água. O que isso quer dizer exatamente, well, isso eu não descobri ainda. Mas achei bonitinho: tudo água.
Adoro estar no mar e, num surto escapista, é debaixo d’água que me imagino. Sinto que sou aquático. Assim me vejo amar. Trago no peito um algo que não é sólido, não é amor-pedra; tampouco leve, não é amor-brisa. Tenho um amor com densidade, mas móvel; amor hiper-suave, mas tangível. Para dureza, amor com força vaga, com onda... Sou a onda e o resto é mar – é impossível ser feliz sozinho. Para fragilidade, amor gentileza, com garoa, garoinha... Sou chuva na roseira – chuva boa, criadeira, que molha terra.

Guardo um excesso, quem sabe imaturo, de promessas de vida no meu coração. Um amor líquido que gela, se sozinho, ou que evapora, se fantasia. Mas essencialmente liquido. Um amor teimoso a buscar eternamente o oceano, a cruzar continentes, a circundar nuvens e a correr corredeiro. Sou correnteza... e eu adormeço sorrindo, sonhando com meu amor. E perco-me neste encontro derradeiro, destino d’água – seja salgada ou doce, porém nunca opostas, mas complementares. Vivo o infinito azul do outro, do nós.
Este é o amor que tenho, ou talvez não o tenha, mas é desejo e, por isso, também meu. Desejo este amor pela água, este amor de pescador. Quero amar sem cara, sem forma; amar o ser em si e ser, para ele, gota ou oceano – e se gota, sem falta; se oceano, sem ganho. Quero não estar somente na sequidão, na sequitude do outro, mas nele em si. Quero matar a sede alheia e me saciar por isto. Quero seguir acalmado feito o mar, que visto de longe parece estável, mas nunca o é – ser rotineiro e não o ser, de fato. Quero amar assim, e assim o pode ser, assim o é.
 Respectivamente:
A base do texto desta vez foi Tom Jobim, o sempre-recorrente Jobim. Não consigo fugir de bossa-nova para falar de amor. Escolhi um intérprete para cada música do intertexto:
1) Wave por João Gilberto no álbum Amoroso / Brasil. Na verdade, são dois LPs reunidos em um único CD. Acho que essa música precisa de um toque mais delicado, do jeitinho de João Gilberto: são coisas lindas que tenho pra te dar, fundamental é mesmo o amor. Escute também: Caminhos Cruzados. 2) Chovendo na roseira por Gal no álbum Gal canta Tom Jobim. Essa canção não agradou tanto, pouco gravada – mas adoro a delicadeza. Eu poderia escolher a versão da Elis, mas seria chover na roseira e no molhado. Fico com a Gal. Escute também: Wave e Estrada do Sol (parceria de Tom com a Dolores – eterna) 3) Águas de Março por Leny Andrade no álbum Letra e Música Antonio Carlos Jobim. Em comparação, Águas já foi gravada trocentas milhões de vezes. Resolvi escolher uma interprete que adoro a voz e pouco conhecida. Não me canso das interpretações da Leny. Escute também: Vivo Sonhando e As Praias desertas 4) Correnteza pela Joyce no álbum Sem Você. Ela chegou a gravar outro disco em homenagem a Jobim – Os anos 60. Ambos belíssimos, super criativos como é a marca da Joyce. Escute também: Outra vez
Escrito por Leo Parvus às 10h34
[]
[envie esta mensagem]
INTERTEXTO 2: DA MUDANÇA DOS VENTOS Para Simone – que está mudando seus ventos!
Tenho a receita drummoniana colada em meu mural: Para um Ano Novo você precisa tentar, experimentar. Acredito, de-verdade, que essa divisão de águas é necessária para que possamos ter a (falsa?) idéia que se pode começar de novo. Hora de fechar um volume do diário com a sensação mais forte de que o passado é passado, fechado e guardado. Pronto: só memória! O que agora existe é o espaço para esperança, muita esperança; e – me perdoem os pessimistas ou ditos-realistas – gosto de sonhar mais um sonho impossível, sim! É minha lei, é minha questão.
 Gelée Blanche, geada branca, de Pissarro. Ó o homenzinho ao trabalho: recomeço.
O Carnaval passou e o ano brasileiro está começando. Acho que mais do que nunca tô sentindo aquele friozinho na barriga... com os novos desafios de minha vida profissional, de minha vida pessoal. Desafios bons, desafios desejados. Olha, vou te contar: desconfio que abri a janela pro Sol entrar, pra luminosa manhã! E o medo? O medo é de tudo ser demais pro meu coração...
A carroça cigana de minha vida tem seguido por caminhos menos pedregosos. Ando guiando meus cavalos por este chão de semente a esperar a vinda da estrela cadente que vai florescer o sertão. Talvez não seja o simples andar da carruagem, mas o cocheiro em si. Tenho fé que estou me permitindo viver, viver como se tudo fosse uma eterna volta ao começo, viver como se o furacão da vida ganhasse seu primeiro sopro aqui-e-agora – e talvez vida-vida não tenha começado há tanto tempo assim. Com os arreios se fazem dois caminhos: ou se vive, se tenta aprender os mistérios do fogo, do rio, do mundo; ou se passa, se deixa passar.
Estou aqui com meus pés no vagonovo, preparando-se para estrela da terra brotar neste impossível chão. Estou aqui vivendo esta incerteza certeira: se me apontam que nada podemos esperar da vida, respondo, então, que meu nada tem andado com forma, cor e luz.
 Sim! É a Nana!
Dito isso, recomendo que escutem Mudança dos Ventos – disco de Nana Caymmi lançado em 80. Tô babando no repertório: Canção da manhã feliz, Estrela da terra, De volta ao começo, Mistérios, etc. A Nana selecionou compositores que admiro muito como é o caso da Joyce, do Dori Caymmi e do Gonzaguinha. Se você não conhece as músicas, tem problema não, o post foi escrito em cima delas - com exceção de Sonho Impossível, que não está no álbum.
Tá aí, gostei: Que venha, que raie, que relampeje.
::: Aparte do dia 14/02 ::: Me tire uns 20 anos / Deixa eu causar inveja Deixa eu causar remorsos / Nos meus, nos seus, nos nossos (Ivan Lins - Mudança dos ventos)
Escrito por Leo Parvus às 10h32
[]
[envie esta mensagem]
INTERTEXTO 1: DOS DESFAMOSOS
Acabo de ver Celebridades, meu primeiro filme de Woody Allen. Verdade seja dita, fico com uma ótima impressão do cara que, pra mim, era só um velhinho de óculos engraçados. Várias histórias intercaladas, filme em pb, ótimos diálogos e uns momentos super engraçados – como o da puta ensinando boquete, clichezão mas mijei. O tema central da fita, como o próprio título sugere, é esse mundo paralelo dos famosos. E, meu deus!: a fama está deixando nossa sociedade doente. As pessoas estão comprando esse ideal de ascensão, de projeção, de aceitação (!!) – e não tô querendo pagar de Sergio Buarque de Hollanda não; é pura constatação.
 DiCaprio e Kenneth Branagh em Celebridades
Estou cá pensando até que ponto eu não participo deste frenesi patológico. O que espero do futuro? Ser um professor universitário e, se possível, escrever – livros, artigos, who knows. Será que já pensei em ser entrevistado pelo Jô? Será que já me imaginei ganhando o Jabuti? Será que já me imaginei na ABL? Ah! Olha lá como o valor daquilo que pretendo produzir – no caso escritos – se tornaria periférico e a verdadeira meta se torna a tal de fama. Um bom escritor não precisa necessariamente ser um imortal, é ou não é?
Escutem Jamie Cullum, o novinho do jazz que adoro: Maybe its too easy, to move so quickly so far / Who wants to be a popstar? – a música é “I want to be a popstar”.
Look around: estamos todos nessa briga frenética. Escutei estes dias um menininho que seria ser o médico-ultra-rejeitado do BBB quando crescesse. Será que as crianças não pensam mais em ser professor?, bombeiro?, astronauta? ou bailarina? Big Brother é só o reflexo, não é a razão em si. Vejamos o nosso novo brinquedinho, por exemplo: tem gente dando o rabo para conseguir entrar nas Celebridades do Orkut. Você é o quanto de scraps você tem. Você é o quanto você consegue chamar a atenção. Bingo!
E quais os meios de ser diferente hoje: ser uma alegoria carnavalesca com cabelo furta-cor e piercing no meio da testa?, ser um performer e conseguir fazer um pocket-show numa mesa de bar pra uma platéia amiga?, ser gostosíssimo e saradíssimo? ou ser estranho e mau-humorado o bastante pra pagar de Virginia Woolf?
Essa ânsia do status social acaba criando dois grupos: aqueles que se acham bonitos e pensam em ser modelo/atriz/cantora/dançarina ou aqueles que se acham feios e pensam em ser novos gênios – aquela coisa Álvaro de Campos do Gênio? Neste momento / Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu. (Agora me lembro: no filme Celebridades, todo mundo tinha escrito um roteiro, hoje todo mundo pode e faz!)
 Um defamoso: Rogerio BBB, um talentoso: Jamie Cullum, um gênio: Pessoa
O problema disto tudo, melhor, o incômodo disso tudo é que 90% da população mundial são do médio – gente comum como eu e você!, gente que tem lá seu talento mas que segue achando que não é bom o bastante, já que não é famoso o bastante. Aí está o ponto! O valor das pessoas está atrelado a projeção dela. Não falo de projeção por talento, porque quem é bom se destaca, ué – normal até aí – falo da projeção do modo como ela é tida hoje: saiu na Caras? apareceu na TV? foi convidado VIP de alguma festa? conseguiu convites para alguma premiére cool? Não? Ah, então é um-qualquer, um desfamoso ahahah
Este que vos fala tem consciência que dentro dessa crítica existe uma ponta de inveja (ou vcs acham que eu sou hipócrita para falar que “não to procurando fama”?), mas para além disso existe uma preocupação legitima: preciso(amos) de ajuda! HELP!
Escrito por Leo Parvus às 09h48
[]
[envie esta mensagem]
POR QUE INTERTEXTAMENTO? A Elis, o lírio do vale
INTERTEXTAMENTO é herdeiro, direto e por direito, do Tantas Palavras – meu antigo blog – já que este foi assassinado. O motivo do homicídio ainda está lá na cena do crime (tantaspalavras.zip.net). Mas o fato é que não consigo ficar sem escrever! Pensar porque me cansei, me impulsionou a tentar procurar uma forma de expressão que seja mais minha. Este é o espaço desta tentativa. Ok, vamos ao manifesto:
1) Intertextamento é o rastro brilhante de uma lesma; é o que deixo do meu passo lento; é o Testamento deste que não é poeta, mas que é menor (Salve Bandeira!); é meu filho; é minha gravidez de uma nota musical, de um automóvel, de uma árvore de Natal; é a ternura e o encanto indiferente da Inscrição ceciliana. Escrevo para que eu possa ser, e ser mais.
2) Intertextamento é transa tropical; é comer Caetano macunaimicamente; é a orgia da arte que conheço; são os matizes de Quintana, a cenografia de Dorival Caymmi, os versos na dança de Saura, as rimas de Van Gogh; é bethânia-lispector-pessoa-iansã num único palco; é o clichê antropofágico, melhor: é a congestão antropofágica. Escrevo feito prece, com o pouco que tenho em mãos, para louvar o Intertexto da própria vida.
3) Intertextamento é um pensamento, um pensamentinho, um pensamentindo; é ter esperança, perde-la e reganha-la; é pensar e não saber pensar; é descobrir a pena quando se há canetas; é a reinvenção sem consciência e crédito; é saber pouco de filosofia e filosofar; é escrever ópera numa mesa de bar; é o não-ser-nada de Álvaro de Campos. Escrevo por vaidade ou, talvez, por uma necessidade, que parece existir além de mim.
4) Intertextamento é ter um diário da Hello Kit; é acreditar que sofre e até... até sofrer; é fingir a dor que deveras sente; é um incomodo sem nome; é uma depressão rasa e contínua; é estar no mundo e olhar pra ele – simplesmente; é ter medo de ser Carolina, enquanto o mundo está passando pela janela; é comer os morangos silvestres de Bergman. Escrevo para dividir a angustiazinha de minha meninice, de minha verdilidade.
5) Intertextamento é ter fé no amor; é ser piegas e repetitivo; é viver sonhando mil horas sem fim; é ser de bossa-nova; é nascer de Câncer; é não entender pessoas que dizem “agora quero me dedicar aos meus estudos ou à vida profissional”; é achar graça nos sonetos de Camões; é acreditar em ‘Como é grande meu amor por você’; é ver a vida en rose. Escrevo para reafirmar a sina humana do amar, malamar, amar e desamar.
6) Intertextamento é o eterno Terra à vista! dos errantes; é descobrir(-se) constantemente; é ser fiel ao instante imediato; é se contradizer e contradizer e contradizer; é procurar sempre e tanto a melhor auto-tradução – em qualquer arte; é o desejo de conhecer um novo a cada dia: um nome, uma palavra, uma canção, uma flor, uma verdade; é redesenhar o próprio rosto em cada espelho; é desdizer agora o oposto do que disse antes. Escrevo hoje porque amanhã posso já não ser o mesmo – ou nem ser.
É por isso que escrevo! É por isso que preciso escrever! Este é o porquê de Intertextamento: ser o Leonardo, amante da Arte, que existe por detrás das letras... o Leonardo.
Escrito por Leo Parvus às 14h53
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|
| |
|
 |
|